1º Lugar . solo profissional moderno

1. Sobre a bailarina
Danço desde os 8 anos de idade. Fui na aula para acompanhar a minha mãe, que tinha fascinação por todo o universo árabe, mas comecei a levar a sério mesmo somente 8 anos depois! Com 16 anos, havia uma leve pressão da minha família e amigos sobre faculdade, primeiro emprego com carteira assinada… acabei largando tudo e fazendo o “normal”: estudar pela manhã e trabalhar em um emprego de “jovem aprendiz”.
Nunca vou esquecer a total falta de sentido que a minha vida tomou. Sempre pipocava de um emprego pra outro, mas largar completamente a dança nunca tinha acontecido até então. Foi aí que eu percebi o quanto dançar era importante para mim, era algo essencial para minha vida e que precisava ter um espaço maior. No trabalho, quando meu horário de lanche acabou, peguei a minha bolsa e nunca mais voltei. Na época, falei que havia sido demitida para evitar sermões, só contei a verdade para minha mãe.
A partir deste dia, comecei a levar a dança com muita seriedade, estudar todos os dias, fazer workshops e cursos para me reciclar. Em um destes cursos, quando já tinha 18 anos, conheci uma menina que ia prestar uma audição para uma Cia de Dança de Jazz e Ballet. Lá fui eu me testar. Fui apenas para receber um feedback e, para a minha surpresa, eu passei! Foi 1 ano e meio de muito estudo. Corria atrás, fazendo aulas particulares e cursos por fora – foi o período da minha vida onde aprendi a ter disciplina. Eu treinava cerca de 6 horas por dia, entre estes dois temas e a Dança do Ventre. Sem acompanhamento nenhum, acabei me machucando sério: tenho 6 lesões só na perna direita, fora o resto do corpo, então resolvi parar e seguir com a dança árabe apenas, já que não tinha tantos saltos e acrobáticos que traziam tantos danos aos meus joelhos.
Mesmo com uma boa recuperação, os médicos falavam que eu não deveria voltar e nem dançar nunca mais. Chorei muito, mas resolvi não desistir. Como estava “de molho”, resolvi me dedicar a um TCC exclusivo sobre lesões no joelho em praticantes de dança com a ajuda da minha irmã. Deste trabalho surgiu a vontade de uma Faculdade. Sou formada em Educação Física pela FMU e Pós-Graduada em Acupuntura pelo Colégio Brasileiro de Acupuntura, o que me permite periodizar meus treinos, cuidar de possíveis estresses musculares e overtraining para evitar lesões graves e ainda sempre cuido das lesões das minhas alunas.
Durante este período de lesões, resolvi criar uma Cia de Dança, para compartilhar tudo o que tinha aprendido até então. Nascia a Mahasin Cia de Dança, que hoje é meu carro chefe, onde tenho alunas, amigas, família e onde recarrego minhas baterias quando as semanas são pesadas. Não tenho como descrever o amor que tenho por todas elas!
Depois que fundei a Cia, veio a necessidade de me destacar no mercado. Por insistência da minha sócia Joyce eu voltei a competir solo em 2013, ficando em 2º lugar no Solo Profissional do Mercado Persa, e me tornando padrão Khan el Khalili no mesmo ano. Retomei o gosto pela competição, e em 2015 fui Campeã do CIAD no Brasil e da Etapa Mundial em Buenos Aires, recebendo o título de Melhor Bailarina do Festival. Em 2016, fui campeã do Hathor e fui para o Japão, viagem que marcou a minha vida! Me tornei vice-campeã mundial. Em 2017, fui campeã do Luxor Star, e voltei este ano para dar aula ao lado de grandes mestres internacionais e nacionais. Mas 2018 me deixou sem palavras: voltei a treinar pesado e fui Campeã do Congresso Mineiro de Dança do Ventre e Festival Shimmie, Bailarina Revelação pela Revista Shimmie e Vice-campeã do solo Master do Hathor Festival! Muito feliz com toda minha evolução e com a possibilidade de contar a minha história aqui nesta revista, que eu vi nascer!

2. Como você estudou as músicas da primeira fase? Qual foi a metodologia para estudo de improviso?
Eram 20 músicas para estudo e eu tinha acabado de vir do Congresso Mineiro, que também tinham 20 músicas para estudar, então eu tinha apenas 3 semanas para fazer todo este processo e precisei de uma imersão: eu treinava pelo menos 3 horas por dia, ritmo que estabeleci desde a competição anterior. Eu estudava as edições primeiro e depois coreografava o pedaço de maior dificuldade. Ia filmando e anotando os meus vícios ruins e tentava melhorar na próxima passada de música. Quando descansava, lia as revistas e escrevia as músicas, o que me ajudava a memorizar as edições que elas apresentavam e perceber com mais clareza as etapas e nuances musicais.

3. Como foi o processo para a criação da coreografia da segunda fase?
Senti muita dificuldade com o tema – como eu conseguiria passar para o meu público algo tão profundo como “Sentidos” em apenas 2 minutos? Resolvi focar em apenas 1 sentido para facilitar, e o escolhido foi a “Visão”. Definida esta etapa, precisava definir o que enchia os olhos do público, quais eram os efeitos visuais possíveis para que ficasse claro que eu estava trabalhando neste tema. Escolhi colocar adereços na minha saia, presos com fio de nylon, para que só ficassem visíveis quando eu fizesse giros em velocidade, e ainda trabalhar com Fan Veil, realizando movimentos com um grau alto de dificuldade. Fui buscar nas minhas aulas circenses da faculdade a inspiração para alguns movimentos. Precisava de uma música que me possibilitasse colocar todos estes movimentos e por fim não esquecer da parte árabe: tremidos, encaixes etc. Foi muito gostoso criar esta personagem e me desafiar com este tema.

4. Quais são as dicas para as profissionais que desejam participar de concurso?
Estabeleçam uma rotina de treinos, anotem seus pontos fracos e fortes, e trabalhem em cima deles. Desta forma, independente do resultado da competição, o objetivo de estudar e se aperfeiçoar será alcançado e trará sempre uma sensação gostosa ao competir, e não de cobrança ou ansiedade.

5. Como você enxerga o que foi/está sendo a construção da sua bailarina, para chegar nos lugares onde quer?
Para mim, a construção da bailarina é dividida em duas etapas. A primeira delas é a parte técnica, onde devemos lapidar todos os movimentos, posturas, desenhos, conhecimento rítmico, estudo folclórico… enfim, tudo que é necessário para compor uma bailarina. Nesta parte, é importante que a gente saiba que a repetição e o compromisso do treino são responsabilidades nossa, e a lapidação em si pode ter participação de professores especializados em determinados temas. Como uma bailarina que busca sempre evoluir, eu gosto bastante de circular entre várias professoras, e estudar temas específicos com cada uma, afinal, cada profissional tem o seu diferencial, o que nos leva à segunda etapa. Cada profissional é lembrada por algo que é especial e único em sua dança. Na minha concepção, isso é uma mistura da personalidade e uma noção dos seus pontos fortes. Eu me repaginei faz mais ou menos uns 2 anos, fui tratar de organizar toda parte técnica, arrumei boa parte do que não julgava bom e comecei a dançar aquilo que achava bonito. Justamente por esta certeza do que eu queria, muitas portas se abriram para mim. Não tenho um estilo muito clássico e me aceitar assim foi muito difícil – queria ser algo que não era e não fazia nem ideia de como ser. Quando finalmente me aceitei, eu encontrei o meu caminho! No meu ponto de vista, nunca paramos de construir.

6. Muitas vezes, o caminho – a construção – é subvalorizado em função de resultados imediatistas. Pular etapas, alçar voos para os quais você ainda não está pronto. Você acredita que isso funciona dentro do mundo da dança?
Acho que sim, pois não acredito que haja uma receita de bolo. Conheço muitas meninas que começaram a se profissionalizar se jogando em shows e, justamente por conta disso é que aprenderam a dançar com espada, candelabro e outros acessórios. Depois de um tempo, veio a necessidade de estudar e desta forma trilharam seu caminho, um pouco bagunçado, mas hoje são grandes profissionais. E tem gente que se forma, aí faz um aprofundamento, depois vai fazendo shows e também são excelentes bailarinas, em seu caminho um pouco mais organizado.
O ponto é: como isso funciona em você? Eu sou uma bailarina que só consigo manter a calma em shows, workshops e competições se treinar muito. Se não for para treinar, eu nem vou, pois acredito que o benefício real está na evolução e não na medalha, e hoje sou mais consistente por conta disso. Mas já fui muito de escolher música no dia e “seja o que Deus quiser”, e percebi que não funciona para mim. Tem pessoas que, se treinam muito, acabam não se entregando e se cobrando muito; justamente por isso, não vivem o presente momento também. Como diz meu marido, “Mapa não é Território”, cada um tem um mapa mental de onde e como quer chegar e o usa da melhor forma. Mesmo estando todos no mesmo “território dançante”, cada caminho é singular.
Claro que normalmente percebemos alguns pontos em comum entre nossos ídolos e decidimos fazer ou refazer algumas etapas, mas, via de regra, acredito que todos nós pensamos estar sempre o mais preparados possível, principalmente quando falamos de voos mais altos, possibilidades, e tudo aquilo que sonhamos em um dia colher.