O caminho que precisamos construir para continuar dançando

Durante os últimos textos desta coluna falamos sobre os caminhos pelos quais podemos percorrer no meio da dança. De amadoras a profissionais, do hobby à profissão. Pois bem, digamos que você, dentre tantas opções, escolheu por fazer da dança mais que sua fonte de prazer e diversão; escolheu por trabalhar e fazer uma carreira dentro dela. E agora?
Primeiramente, devemos entender que a carreira, desde sua etimologia até seu uso corriqueiro, remete-nos à ideia de caminho, de um percurso dentro de alguma posição social que demanda tempo para ser construído. Tempo (guardemos bem esse conceito que será fundamental nessa jornada!). Entendido isso, já temos um bom ponto de partida para começar a pensar sobre como podemos fazer carreira dentro da dança, já que não basta ser profissional para tal.
Quando nos tornamos profissionais de Dança do Ventre, ou seja, dançamos em eventos remunerados, damos aulas, por exemplo, podemos fazer isso por um certo período e não nos preocuparmos com o futuro deste trabalho. Já a carreira é tornar essa profissão algo que te acompanhe por um longo período da sua vida, que ultrapassa o clichê de que toda menina sonha em ser bailarina, pois estamos falando em muito mais do que realizar desejos, mas de um processo de autoconhecimento, paciência e estruturação de planos e projetos.
É, falando assim, pode ser que tire um pouco da «magia» que criamos ao redor da Dança do Ventre e de ser artista, mas, convenhamos, não é fácil viver de arte. Tirando a questão financeira e a desvalorização da profissão, realidade que tanto falamos e enfrentamos para mudar, a dificuldade de ser bailarina começa internamente, quando nos vemos lutando contra esse desejo pulsante que habita em nós por questões sociais que muitas vezes nos «obrigam» a optar por profissões “seguras”, aquelas que crescemos ouvindo que devemos seguir. Quem já ouviu um “Mas você só dá aula/dança?” sabe do que eu estou falando, da dificuldade que temos de nós mesmos valorizarmos nossas escolhas e defendermos que sim, muitas vezes só damos aula e dançamos (e só nós sabemos o quanto isso exige de nós) e temos a felicidade de trabalhar com o que amamos e que nos faz bem. Quem foi que disse que trabalho tem que ser exaustivo e dentro de um escritório?
Digamos que você já superou essa primeira barreira, aceitou o seu desejo de ser bailarina, vestiu a camisa e está pronta para trilhar esse caminho. Agora, precisa entender quem é essa bailarina que está aí em você. Em todas as situações de nossa vida, desempenhamos papéis sociais. Eu, por exemplo, quando estou no meu papel de psicóloga, me porto, me visto e falo de uma forma; já como bailarina, no palco, de outra. Isso é fundamental para todas as pessoas em todas as profissões, e não quer dizer que você está criando várias personalidades e precise agir de forma oposta em cada uma delas. Não. Cada lugar que ocupamos na sociedade exige algo de nós e vamos nos adaptando em cada um deles, o que não significa que precisamos nos moldar às exigências externas cegamente, mas, precisamos nos conhecer a ponto de saber filtrar as demandas que chegam até nós e agirmos conforme nossas verdades.
Assim, o autoconhecimento é essencial para nós artistas. É preciso construir um personagem (novamente lembrando que isso não é como se fossemos atuar ou inventar algo de mentira). Criar a nossa bailarina é se permitir! É expandir nossos desejos e nos libertar de “verdades” que aceitamos, às vezes, sem questionar. Criar a nossa bailarina é poder usar roupas que talvez você não se sinta tão à vontade quando está ocupando outro espaço social, é usar glitter dos pés à cabeça mesmo não sendo Carnaval, é poder acessar emoções que ainda não têm palavras para conseguir expressá-las, mas que se fazem sentir no corpo em movimento.
Quem é sua bailarina? Qual é o nome dela? O que ela veste? Com qual estilo de dança ela se identifica? Qual é seu perfume? Qual é seu ritual antes de subir ao palco? Não existe nenhuma regra que dite quais passos seguir ou que essas escolhas sejam obrigações, mas fazem parte do olhar cuidadoso que precisamos ter conosco. Olhar atentamente para si e para esses (ou outros) aspectos pode te auxiliar a se conhecer melhor e fazer você se sentir mais confiante e segura, o que acaba sendo uma base para a entrega da sua verdade quando está em cena. Ali estamos totalmente abertas, expostas, colocamos nosso corpo como centro das atenções, então precisamos dessa fortaleza que criamos para conseguirmos nos entregar da forma mais confortável e autêntica.
Construir uma carreira na dança é estar, constantemente, se redescobrindo. Se queremos ser bailarinas reconhecidas pelo nosso trabalho, nossa história construída dentro da dança do ventre, precisamos cuidar da nossa saúde mental. Não podemos nos limitar a uma só forma de ser, pois crescemos, mudamos nossos pensamentos, nossos corpos mudam de forma, descobrimos nossos gostos, vivenciamos novas experiências e tudo isso reflete na bailarina que somos. Estar ciente de quem se é, permite que você acesse novas formas de ser, sem se desligar de sua verdade, de sua personalidade. Não precisamos seguir todas as modas, dançar todas as músicas do momento. Se aquilo fizer sentido para você, faça! Se não, sempre haverá espaço para o diferente.
Acredito firmemente que se conhecer enquanto ser que dança é praticamente um processo terapêutico (com todo respeito à Psicologia ao fazer essa analogia, afinal nenhuma outra prática pode substituir a atuação de um profissional da área, mas pode ser um complemento importante e com efeitos inegáveis). Olhar-se no espelho, nos vídeos, avaliar-se, buscar conhecer cada parte desse corpo, suas expressões, senti-lo quando pratica os movimentos, tudo isso, aliado à ajuda de um profissional que te guie, te oriente, um olhar do outro que te auxilie e não de respostas prontas (afinal, só nós podemos dizer o que realmente somos, pensamos ou sentimos) pode ser o caminho para essa descoberta interior. Olhar para você mesmo, sem julgamentos, sem preconceitos limitantes, pode ser libertador.
Pra mim é nítido quando uma profissional construiu sua bailarina e consegue ter embasamento para continuar trilhando sua carreira – está ali na frente de nossos olhos. A gente bate o olho em tal roupa e logo fala “isso é a cara de fulana”, ou vê as alunas dela dançando e reconhece pelo dedo mindinho a professora que tem. É que cada um é único, e é assim na dança também.
Construir é criar. Criar um caminho na dança, um futuro, é muito mais que uma profissão. Isso faz parte de você e da sua vida, afinal não é do dia para a noite que se constrói o tal do “sucesso”, são anos dentro da sala de aula, errando, acertando, tentando… construir uma carreira é estar disposto a se reinventar, se dedicar a você, aos seus gostos e desgostos, à manter-se fiel à ética daquele trabalho, mas sem se esquecer dos seus próprios valores e toda base que construiu para se manter nessa estrada. O seu sucesso (independentemente do que você considere ser bem-sucedido) só acontecerá se você estiver ciente de quem você é e o que busca, valorizar a sua luta individual e reconhecer o auxílio das pessoas que caminharam com você. Pra construir uma carreira na dança não adianta seguir cegamente caminhos já trilhados; você pode sim se inspirar, mas quando chega a hora que você vai colocar toda aquela bagagem pra fora, é só você que vai estar ali, então confie na sua singularidade.
É preciso desbravar interna e externamente estradas que façam você caminhar com os braços abertos para o novo. É bem mais interessante quando a gente se surpreende, não é mesmo? Surpreenda-se também com a pessoa que você está construindo com essa dança!

 

Psicologia

Por Cecília Baruki

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