As lutas femininas para ocupar espaços no mercado de trabalho, na política, nas artes e em todos os ambientes prioritariamente masculinos são antigas. Ao longo da história, numa sociedade machista e patriarcal, ter acesso aos meios de escolarização formal, ao voto, ao trabalho fora de casa, foram vitórias que, aos poucos, proporcionaram às mulheres ferramentas para concorrerem em igualdade de condições por postos que, até então, eram exclusivamente masculinos.
Hoje estamos presentes em todas as profissões, e cada vez mais buscamos uma coisa: Representatividade. Estar presente, fazer parte, se sentir representada. Ser mulher não deve (ou pelo menos não deveria ser) critério para estar ou não habilitado para qualquer função. Contudo, a discriminação e o preconceito ainda são barreiras que impedem que isso aconteça e mulheres tem, diariamente, suas capacidades subjugadas e suas remunerações distintas das masculinas, mesmo possuindo grau de escolaridade maior.
Agora imaginem esse cenário pelo ângulo da dupla discriminação: ser mulher e ser negra. Aí as coisas ficam mais difíceis, e se a presença feminina nos espaços é conquistada com muita luta, para a mulher negra essa luta é dobrada.
* É muito difícil olhar os espaços de poder e não nos sentirmos representadas.
* É muito difícil ligar a televisão e não nos sentirmos representadas.
* É muito difícil abrir as revistas e não nos sentirmos representadas.
* É muito difícil assistir a um show e não nos sentirmos representadas.
* É muito difícil olhar e não se ver.
Mais difícil ainda é a invisibilidade imposta pelas mídias, pela sociedade, pelo mercado de trabalho, pelos agentes políticos e por todas as fontes de poder que olham e não nos enxergam. É difícil ter todo dia que provar que é capaz e mesmo assim ver diminuídas suas chances pela cor da sua pele.
Na dança do ventre esse cenário não é diferente. O Brasil, apesar de ser um país altamente mestiço, colorido e cheio de diversidade, não possui no primeiro escalão da dança do ventre nenhuma bailarina negra. Nos grandes festivais que se espalham pelo território nacional, com workshops dos mais diversos temas, não vemos mestras negras nas grades de profissionais. Os cartazes de show de gala, sejam eles em qualquer parte do país, são prioritariamente brancos. Os selos, certificações e padrões são prioritariamente conquistados por mulheres não-negras.
Será que não temos bailarinas negras capacitadas para estarem nesses lugares? Ou será que a dança do ventre reflete e replica o cenário posto nos outros segmentos de mercado?
Hoje há um movimento pulsante de bailarinas negras na dança do ventre por ocupação de espaço, por visibilidade, por reconhecimento do trabalho, do esforço e do talento que deveriam ser os únicos critérios para uma profissional ser considerada boa, ou não.
Quantas professoras e bailarinas negras há pelo Brasil? Quantas frequentam cursos, workshops, shows, festivais, concursos e não se sentem representadas? Quantas ainda convivem com a invisibilidade?
Aí você pode estar pensando: “Mas Cheirosa! Você é representatividade, você foi capa de revista, foi para o programa de Fátima Bernardes, participa de shows, tem visibilidade e tem voz.” Infelizmente, eu ainda sou exceção. E enquanto pudermos contar quantas somos, é porque ainda não está justo.
É urgente a necessidade de assumirmos o protagonismo na dança do ventre. De não apenas sermos plateia, consumidoras, número. Precisamos olhar e nos ver. Precisamos olhar pros palcos, cartazes, revistas, concursos, CD’s e DVD’s e nos sentirmos representadas. Olhar e pensar: Algumas de nós chegaram lá! É possível!
Representatividade importa, sim!

 

Empoderamento

Por Angela Cheirosa

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